Método de interpretação bíblica da Reforma Protestante

Método de interpretação bíblica da Reforma Protestante

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Ou seja, os reformadores começaram a ler a Palavra e a compreendê-la de tal forma que não poderiam mais aceitar como o papado interpretava a Bíblia. Descobriram que a Igreja Romana não estava sendo fiel às escrituras (o que não é diferente hoje). Iniciava-se, assim, no dia 31 de outubro de 1517 a Reforma Protestante do século XVI.

Concordo com Paulo Anglada quando ele diz que “na prática, as igrejas evangélicas em geral não têm professado teologia precisa, sistemática, confessional e histórica. Mesmo as denominações mais tradicionais parecem estar se distanciando progressivamente das doutrinas e práticas reformadas que caracterizavam as igrejas protestantes do passado, e pelas quais muitos chegaram a dar suas vidas.”

Diante dessa situação, precisamos lembrar os principais pontos do método de interpretação bíblica gramático-histórico (histórico gramatical), que se originou da Reforma Protestante. Por descuido, ou desconhecimento, ou mesmo por desprezo e soberba, esse método foi abandonado pela maioria.

Analisaremos esse método em relação a outro que tem crescido muito, principalmente nas faculdades teológicas: Histórico-crítico. Lembramos que a interpretação histórico gramatical não é perfeita, porém teve importância significativa para a reforma. Hoje a situação não é diferente, em meio a tantas “heresias”, faz-se necessário conhecer mais essa interpretação tão importante. Veremos, também, exemplos práticos dessa interpretação.

 

1. O que são métodos de interpretação?

De acordo com o dicionário VINE, interpretar significa “explicar”. Escritores e pregadores ao invés de interpretar a Bíblia, tem emitido suas próprias opiniões, causando confusões e produzindo heresias… Tem muita gente escrevendo e pregando certas revelações (mesmo contrárias as Escrituras), como verdade igual ou superior à própria Palavra de Deus.

Jesus deu o exemplo. Certa vez, Ele falou por parábolas e o apóstolo Pedro, “tomando a palavra, disse-lhe: Explica-nos essa parábola.” (Mt 15.15). Então, Cristo explicou a mensagem. Podemos tirar vários ensinamentos para a nossa vida através das Escrituras, porém cada passagem possuí apenas um único objetivo e propósito. O dicionário VINE faz a seguinte observação: “Pode haver mais de um significado ‘alegórico’, embora, é claro, haja só um significado literal. As histórias das Escrituras representam ou incorporam princípios espirituais, e estes são averiguados não pela atividade da imaginação, mas pela aplicação legítima das doutrinas das Escrituras”.

O apóstolo Paulo, certa vez, orientou a Tito dizendo para não dar ouvidos “às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tito 1.14). Devemos buscar o sentido correto, incansavelmente, e não ficar inventando. Falo isso, porque é mais fácil olhar o texto bíblico, pensar alguma coisa e escrever ou pregar; ao invés de orar e estudar profundamente a verdadeira mensagem das Escrituras.

 

1.1. Histórico-crítico

Essa interpretação, que surgiu no final do século XVII, pertence a uma corrente conhecida como Humanista, “que caracteriza-se por dar ênfase excessiva ao caráter humano das Escrituras e por uma aversão ao seu caráter sobrenatural.”2 O foco principal é o método, a técnica, os aspectos literários ou históricos das Escrituras. Deixando de lado o caráter divino, espiritual e sobrenatural da Palavra de Deus. Os teólogos liberais defendem essa posição.

Seus seguidores consideram as Escrituras como mero registro da fé de Israel e dos primeiros cristãos, negando a sua inspiração divina e infalibilidade. Segundo o reverendo Augustus Nicodemus, esse entendimento faz com que “as novas hermenêuticas centradas no leitor não apenas retiram das Escrituras seu caráter autoritativo, mas transformam o leitor em autor, pois é ele quem determina o sentido”. Em outras palavras, o leitor passa a “definir” o sentido das Escrituras, de acordo com os seus interesses, como se fosse o próprio escritor dos originais. Qual o resultado disso? Ensinamentos que não estão fundamentados na Bíblia Sagrada, portanto não tem validade diante de Deus. 

Um dos maiores defensores da teologica liberal, sem dúvidas, foi Rudolf Karl Bultmann. Foi ele quem levantou o problema da demitologização da Bíblia Sagrada. De acordo com o Wikipédia:

Bultmann argumenta que a humanidade contemporânea, que se acostumou com os avanços da ciência, não pode aceitar o conceito mitológico do mundo expresso nos escritos bíblicos. Assim, a tarefa da teologia é contextualizar os textos bíblicos para aproximar sua mensagem à cosmovisão moderna. Citando Bultmann: “… tudo isto é linguagem mitológica… Em se tratando de linguagem mitológica, ela é inverossímil para o ser humano hoje”.7

 

1.2. Gramático-histórico ou histórico-gramatical

Essa interpretação teve sua origem na Reforma Protestante, e por isso é intimamente ligada ao cristianismo histórico e às doutrinas da graça5. Além disso, por ser gramático, considera o sentido das palavras e a compreensão das condições históricas em que foram registradas3. Anglada também concorda com essa posição e afirma: “Trata-se de um método fundamentado em pressuposições bíblicas quanto à própria natureza das Escrituras, que emprega princípios gerais e métodos lingüísticos e históricos coerentes com o caráter divino-humano da Palavra de Deus.”

Os adeptos desse método acreditam que 3:

  1. A Bíblia é a Palavra de Deus, inspirada, autoritativa, infalível, suficiente e única regra de fé e prática;
  2. A Escritura está acima de tradições e confissões;
  3. A Palavra de Deus tem apenas um sentido, que é aquele pretendido pelo escritor inspirado pelo Espírito Santo;
  4. A Bíblia é a sua melhor intérprete,ou seja, Ela é auto-explicativa;
  5. O estudo é necessário, pois foi escrita por homens de cultura e língua diferentes em momentos históricos diversos;
  6. A mensagem central de salvação é clara a todos. Qualquer pessoa, iluminada pelo Espírito Santo, pode ter conhecimento dessa mensagem;
  7. As diferentes doutrinas que possam vir a existir, não decorrem de erros ou contradições da Escritura, mas da incapacidade humana decorrente do pecado e das nossas limitações naturais;

  

1.3. Comparações

Interpretação
Histórico-Crítico Histórico Gramatical
Destrói/enfraquece a fé do crente Fortalece a fé do crente
Não acredita que a Bíblia é a Palavra de Deus Crê que a Bíblia é Palavra de Deus
Considera necessário apenas o estudo Equilíbrio entre o estudo exaustivo da Palavra e a oração
Produz mais professores acadêmicos do que pregadores Produz grandes pregadores e expositores bíblicos
Boa parte defende que Deus se revelou através da história, poesias e experiências. Crê que Deus se revelou proposicionalmente (através de declarações, sentenças e frases)
Falta de comprometimento com a Palavra Comprometimento com a Palavra

 

2. Exemplos práticos

Nesse momento analisaremos 3 passagens bíblicas, segundo cada interpretação, para compreendemos melhor as diferenças e efeitos na vida do crente e da igreja. Joachim Jeremias (autor do livro Teologia do Novo Testamento) ocupa uma das vertentes pós-bultmanianas, faz as seguintes observações:

I) Palavra de Deus: Com relação as duas versões do pai-nosso em Mateus e em Lucas, ele acredita que “não só temos que contar com o fato de que as palavra de Jesus tenham sofrido alterações no período que vai até a sua forma escrita, mas temos que contar, além disso, com a possibilidade de novas formulações”.6 É visível que o autor tenta influenciar o leitor a acreditar na existência de erros e acréscimos na Bíblia Sagrada.

Analisemos as passagens:

Lucas 11.2-4: “E ele lhes disse: Quando orardes, dizei: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra, como no céu. Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano; E perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a qualquer que nos deve, e não nos conduzas em tentação, mas livra-nos do mal.”

Mateus 6.9-13: “Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; O pão nosso de cada dia nos dá hoje; E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal; porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amém.”

Segundo a analise Histórico-gramatical, leva-se em consideração a personalidade e perfil do escritor bíblico. Cada um tem uma forma de expressar o relato bíblico, sem contudo prejudicar a verdadeira revelação. O último versículo (Mt 6.13) que tem um acréscimo que é verdadeiro e não contradiz o restante da oração que é semelhante a descrita por Lucas.

Afirmativas e crenças de que a Escritura foi adulterada colaboram para o pensamento de que a bíblia sagrada não é a Palavra de Deus. Isso é uma heresia e portanto devemos ter cuidado! Essa forma de interpretar gera inúmeras heresias. Por exemplo, se a bíblia foi alterada, não posso afirma que certos pecados no passado ainda são pecados hoje! Uma igreja pensando dessa maneira não será sal na terra, e sim mais um grupo de religiosos sem o Poder de Deus.

 

II) Divindade de Cristo: Em Mt 11.27 ele argumenta: “estamos diante de uma afirmação central sobre a missão de Jesus. Seu Pai lhe transmitiu como um dom a revelação sobre si mesmo, tão plenamente, como só um pai se abre para com o seu filho. Por isso só ele, Jesus, é que pode abrir para os outros o verdadeiro conhecimento de Deus”. Em seguida, na página 113, ele afirma: “não somos informados sobre quando e onde Jesus recebeu essa revelação, na qual Deus a ele se abriu como um pai a seu filho”. Em Mt 11.27 temos:“Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”

Note que inicialmente parece que o escritor crê que Jesus é o Filho de Deus, mas em seguida ele lança a dúvida de maneira sutil. Ele não sabe “quando” Jesus recebeu de Deus a revelação e que tal revelação foi passada a Cristo como um pai a seu filho. Ele enfatiza o modo como foi passado, deixando em dúvida a divindade de Jesus, o Filho de Deus.

A dúvida com relação a “quando” induz ao leitor a esquecer que Jesus também é Deus, e portanto não tem início, meio e fim. Ele é eterno. Ou seja, ele poê em dúvida a divindade de Cristo. Em Jo 1.1-3 mostra a eternidade de Cristo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” Gramaticalmente o termo verbo significa Palavra( no grego), porém de cordo como o contexto, aqui está relacionado ao Filho de Deus, Jesus. Como em seguida João faz questão de lembrar em 1.14: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. Jesus , o Verbo, se fez carne e habitou entre nós.

A segunda dúvida levantada pode ser tirada em Jo 10.15 que diz: “Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas”. Ou seja, Deus não só passou a revelação da forma como um pai passaria ao filho, mas também reconhecia Jesus que é o seu Filho. Jesus não estava enfatizando a forma como foi passada a revelação, mas que foi passada a Ele porque Ele é o Filho de Deus, e o Pai só poderia revelar ao Filho.

 

III) Pecado: Em Lucas 4.13 Jeremias afirma que a palavra tentação deve ser traduzida por “prova” ou “ contestação”. Pois o sentido da assim chamada ‘história da tentação’ não é de modo algum que Jesus foi tentado a fazer um pecado e resistiu; trata-se antes do sim de Jesus à sua missão. Por isso, a designação de ‘história da tentação’, que é exposta a mal-entendidos por ser moralizante, deveria ser abandonada. Diante de nós não está o Jesus tentado, mas o Jesus contestado”.

Lucas 4.13 refere-se a vitória de Jesus no deserto contra todas as tentações da carne. Porém, o autor não crê que Jesus foi tentado no deserto, e sim que Cristo venceu no deserto todas as contestações com relação a sua doutrina. Esse entendimento, herético, equivocado e forçado, pertence a pessoas que não acreditam que Jesus morreu em nosso lugar por causa dos nossos pecados. A Palavra de Deus diz claramente em Hebreus 4.14-15: “Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão. Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas;porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado.”

O povo de Israel passou 40 anos no deserto sendo tentado. Muitos não resistiram e pecaram, por isso não foram salvos da condenação. No entanto, Jesus foi tentado em tudo em 40 dias (tudo o que eles foram tentados em 40 anos, mais todas as outras provações da humanidade do passado, presente e futuro), mas não pecou. Só o Filho de Deus teria esse poder. E por causa disso, SOMENTE Cristo tem TODA a autoridade para perdoar os pecados.

Em tudo ele foi TENTADO, e não CONTESTADO, mas não pecou. Se isso não tivesse acontecido, Jesus não poderia ser nosso sumo sacerdote, que tem poder para perdoar nossos pecados. Crer que Jesus não foi tentado significa acreditar que não existe pecado. Logo, não precisamos nos arrepender de nada! Estamos livres para viver a vida do jeito que quisermos, sem levar em consideração a vontade de Deus.

Igrejas que suavizam, abrandam, atenuam o pecado, tornando-o algo insignificante, ou tentam tirar ou diminuir a culpa do homem, coisas da psicologia sugeridas por Sigmund Freid, tendem a criar artifícios para inchar de adeptos, tentando agradar ao máximo o não-salvo com objetivo dele congregar na igreja. Na Palavra de Deus podemos observar que não existe amizade entre a Igreja do Senhor e o mundo. Quando o evangelho é pregado, somente duas reações são manifestadas no pecador: Ou ele se arrepende dos seus pecados e converte-se, ou ele fica furioso e foge. Há relatos bíblicos, como o de Estêvão (At 7.59), que foi apedrejado. Ninguém ficou rindo ou aplaudindo o que ele falou. Não significa que vamos maltratar os que não são da igreja, mas que não compartilhamos da mesma comunhão.

 

3. Um apelo ao retorno do método gramático-histórico

A interpretação histórico-crítica, apesar de ser prejudicial à fé cristã, tem se difundido muito, principalmente nas faculdades teológicas. Segundo Fábio César Junges, pós-graduando em Metodologia Pastoral da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e Missões – URI, isso se deve ao fato de que:

A interpretação histórico-crítica se revela como inesgotável por vários motivos: primeiro, “em razão da própria natureza do material sobre o qual trabalha, isto é, o conjunto dos textos bíblicos”; segundo, “em razão do lugar que lhe é próprio, a história”; e terceiro, “em razão da própria configuração do método, pois suas ramificações permitem que se aplique em múltiplos níveis e sob formas diversas”

Independente disso precisamos voltar para o método histórico gramatical. Dessa forma analisaremos a Palavra de Deus com um único objetivo: crescimento no conhecimento de Deus e da fé que um dia foi dada aos santos. Devemos estudar a Escritura sem deixar de crer que ela foi inspirada pelo Espírito Santo, como menciona o teólogo e escritor David S. Dockery (presidente da Union University, US): “a influência sobrenatural do Espírito Santo na escolha de indivíduos que foram usados como instrumento de Deus para comunicar, de forma infalível, a sua mentalidade e vontade”. O apóstolo Pedro também afirma isso: “Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo.” (2Pe 1.20-21)

 

Somente a Escritura (Sola Scriptura) é a suprema autoridade em matéria de vida e doutrina; só ela é o árbitro de todas as controvérsias (“a supremacia das Escrituras”). Ela é a norma normanda (“norma determinante”) e não a norma normata (“norma determinada”) para todas as decisões de fé e vida”.1Esse pensamento foi defendido na Reforma Protestante. Precisamos retornar a utilizar o método de interpretação histórico gramatical. O uso coerente desse método pode ser crucial para a reforma do protestantismo brasileiro3.

 

 

 

 


 Fontes:

1 – MATOS, Alderi Souza de. Sola Scriptura (Somente as Escrituras). Localizado em: http://www.monergismo.com/textos/ cinco_solas/solascriptura_alderi.htm

2 – ANGLADA, Paulo R. B. Orare et Labutare: A Hermenêutica Reformada das Escrituras. Localizado no Scribd.com.

3- NICODEMUS, Augustus. O que estão fazendo com a Igreja. SP, Editora Mundo Cristão, 2009

4 – Wikipédia. Link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Platonismo . Visitado: 21/10/2010 – 21:35.

5 – Ver o artigo “Dez efeitos de crer nas doutrinas da graça

6 – JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. Editora Hagnos, SP. 2008

7 – Wikipédia. Link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Demitologiza%C3%A7%C3%A3o . Visitado: 28/10/2010 – 10:17.

8 – JUNGES, Fábio César; KONZEN, Léo Zeno. O método Histórico-Crítico de interpretação bíblica. Revista Eletrônica de Extensão da URI

9 – DOCKERY, David S. ; MATHEWS, Kenneth A. ; SLOAN, Robert B. Foundations for biblical interpretation. Editora B&H, Tennessee EUA. (ver também: http://www.uu.edu/dockery/)

10 – VINE, W.E. Dicionário VINE. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

 

 

 

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