Os cidadãos do reino

Os cidadãos do reino

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“Nenhuma propriedade, nenhuma quantia de ouro e prata é mais estimável do que a honestidade.” (Marco Túlio Cícero)  

Cícero é normalmente visto como uma das mentes mais versáteis da Roma antiga. Foi ele quem apresentou aos romanos as escolas da filosofia grega e criou um vocabulário filosófico em latim, distinguindo-se como um linguista, tradutor, e filósofo. Um orador impressionante e um advogado de sucesso.

É dele a célebre frase:  “O tempora, o mores!”  frase proferida por Cícero ao ver a corrupção de sua época. A tradução da frase seria algo do tipo “Que tempos os nossos! E que costumes!”

Algumas de suas obras nos deram grande parte do atual conhecimento da filosofia grega, enquanto outras influenciaram profundamente a ética cristã e a moral leiga moderna, pela sua compreensiva sabedoria humana. Seus trabalhos como  “De Republica” (Da República) e “De Legibus” (Das Leis), foram muito citados por Santo Agostinho e outros filósofos.

Santo Agostinho credita Cícero como responsável por despertar seu interesse em filosofia, ao ler o diálogo “Hortêncio”, por volta de 369 ou 370.

Cicero, que não era cristão, estimava a honestidade. Por isso, espera-se que os cristãos a valorizem mais do Cícero, pois os salvos seguem e servem a Jesus Cristo que foi, é e sempre será honesto.

Ao falar sobre o caráter de seus seguidores Cristo disse: “Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito. Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas? E se vocês não forem dignos de confiança em relação ao que é dos outros, quem lhes dará o que é de vocês?” (Lc 16:10-12).

A criação da igreja primitiva era o princípio do reino de Deus entre os homens, através da ação do Espírito Santo no coração daqueles que haveriam de ser salvos. Como afirmou o apóstolo Paulo mais tarde: “Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos.” (2 Cor 3:3).

Vimos na mensagem anterior que os primeiros cristãos experimentaram um estilo de vida totalmente oposto  à dureza daquela época de dominação romana e escravidão judaica.  

O comentarista bíblico David J. Williams, afirma que “embora a Igreja Primitiva não tenha proclamado qualquer nova ordem social e econômica, na realidade instituiu dentro de suas próprias fronteiras a ordem do amor fraternal. O escravo não era obrigatoriamente libertado, mas era considerado como verdadeiro irmão em Cristo. A viúva e o órfão, o pobre e o necessitado, o estrangeiro e o perseguido, tornaram-se alvos do cuidado especial das comunidades cristãs.

Em meio a um mundo duro e cruel, as igrejas formavam uma teia de caridade e socorro mútuo, a ponto dos próprios pagãos reconhecerem: Vede como os cristãos amam-se uns aos outros.” Se Cícero presenciasse aquela comunidade cristã, certamente diria novamente: “O tempora, o mores!” Porém, dessa vez essa frase seria um elogio.

Agora que você já conhece um pouquinho mais sobre Cícero, vamos olhar com cuidado para o final do capítulo quatro de Atos.

Aqui, Lucas faz uma pausa no seu relatório sobre o início da igreja para destacar uma pessoa em especial: “…Então José, cognominado pelos apóstolos Barnabé (que, traduzido, é filho da consolação), levita, natural de Chipre, possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos.” At 4:36-37

A princípio, a atitude de Barnabé é igual a dos outros crentes, então por que o destaque?  Parece que Lucas quer anunciar a chegada de um dos grandes líderes da igreja, também considerado apóstolo, segundo vários comentaristas. Um segundo objetivo seria destacar a mordomia cristã e a excelência do caráter dos crentes e seus líderes. Confiança e honestidade recíprocas.

David J. Williams ainda afirma que um terceiro propósito pode ter sido salientar o contraste entre o retrato da igreja aqui pintado e a conduta de dois de seus membros (Ananias e Safira) na narrativa que se segue (5:1-11). No grego, estes dois parágrafos (4:32-37 e 5:1-11) estão ligados pela conjunção adversativa “mas”.   

Vamos analisar um pouco mais esse momento inicial da Igreja. Quando Jesus enviou seus discípulos mandou-lhes anunciar: Por onde forem, preguem esta mensagem: ‘O Reino dos céus está próximo”. (Mt 10:7).  Após a ressurreição, Cristo assume definitivamente a posição de rei de todo o universo, com a seguinte declaração:É-me dado todo o poder no céu e na terra…” Mt 28:18.

O judaísmo entendia que Cristo viria ao mundo como o grande Messias, o Libertador, a fim de cumprir a profecia sobre a  vinda de um humano descendente do Rei David, reconstruindo a nação de Israel e restaurando o reino de Davi, trazendo desta forma a paz ao mundo.

No entanto, a revelação de Deus para seus apóstolos, nos mostrou um plano mais que perfeito, elaborado antes da fundação do mundo. Esse entendimento é fundamental para para juntarmos as peças desse “quebra-cabeça” chamado Igreja.  

Na carta aos Efésios, Paulo  faz algumas declarações bíblicas, começando a desvendar os mistérios de Deus a respeito da Igreja:

“Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença…” (Efésios 1:4;9-11). ¶

“Portanto, lembrai-vos. que vós noutro tempo éreis gentios na …. naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo… Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto…” (Efésios 2:11-15)

O apóstolo Pedro também foi privilegiado com a revelação de Deus para sua amada Igreja:

“…Mas vòs sois a geração eleita, o sacerdòcio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia… (1 Pedro 2:9-10)

Com esses versículos em mente, percebemos que, com a chegada do “Reino de Deus entre nós, a Igreja, formada por judeus e gentios, passou a ser a luz do mundo, o farol que atrai e convida todos a conhecerem o Rei. “…de sorte que somos embaixadores da parte de Cristo…” (2 Coríntios 5:20).

Sendo assim, o livro de Atos nos mostra o início desse reino palpável no mundo, começando em Jerusalém (onde estava aquela comunidade igualitária), Samaria e depois foi aos confins da terra.

Da mesma forma como Moisés libertou o povo de Israel das mãos do Egito e depois passou a nação aos cuidados de Josué, Cristo, ao morrer na cruz libertou o povo de Deus (judeus e gentios) da escravidão do pecado e da ira Divina. Ao ressuscitar Jesus passou cerca de quarenta dias preparando seus apóstolos para conduzirem seus súditos à pátria celestial.

Podemos comparar esses primeiros dias de êxito da Igreja aos primeiros sucessos de Josué em direção à terra prometida. Josué atravessou o rio jordão, assim como Moisés atravessou o mar vermelho. Venceu uma das maiores fortalezas do deserto, a famosa Jericó, e continuou avançando até chegar a cidade de Ai.

Assim também aconteceu com a igreja. O ministério do Espírito foi inaugurado na festa de pentecostes e depois disso a igreja foi avançando nas suas conversões, através de sinais e maravilhas vistos por todo o povo.

Até a doação de Barnabé, essa era a situação da igreja. Uma comunidade feliz, na qual seus participantes estavam encantados com o reino. Foi um momento único e especial. Toda comunidade passa por esse tipo de encantamento. Seus novos membros orgulham-se de pertencer a ela e agem da melhor forma possível, fazendo de tudo para que essa comunidade cresça.

É claro que existiam outros fatores além dos psicológicos. O principal deles era a transformação produzida pelo Espírito naquelas novas criaturas, trazendo pureza para o convívio do grupo. Ás vezes temos a impressão de que não existia pecado por lá, mas isso não é verdade. Embora servos de Cristo, eles continuavam sendo pecadores, porém, salvos pela graça.

Barnabé foi o grande expoente desse grupo inicial de cristãos. Voluntarioso, piedoso e guerreiro. Manteve o foco em Cristo. Correu com perseverança a corrida até a pátria celestial e não tirou os olhos de Jesus, autor e consumador da fé.

O que podemos aprender com tudo isso?  

Fica evidente que nos primeiros anos de cristianismo, a igreja avançou baseada na voluntariedade e simplicidade daqueles cristãos. Eles não tinham noção de onde poderiam chegar, não disputavam por poder ou reconhecimento na sociedade e insistiam num estilo de vida amoroso e altruísta, onde o coletivo era superior ao individual, porém as virtudes individuais eram extremamente valorizadas e aproveitadas em prol do reino.

Ao se tornarem pobres de espírito, abrindo mão do governo de suas vidas para viverem integralmente a vontade de Deus esses cristãos mudaram o império romano e o mundo ocidental.

Alguns casaram-se para ajustarem-se ao plano divino de família, outros ficaram solteiros para dedicarem-se mais ao reino. Quem roubava passou a trabalhar, os mentirosos tornaram-se verdadeiros. Os egoístas passaram a viver em grupo. Quem tinha mais doava, quem tinha menos  esforçava-se para repartir. A tristeza deu lugar à alegria e as dúvidas deram lugar às certezas das promessas divinas.   

Apesar de todo o destaque dado por Lucas, parece-nos que Barnabé em nenhum momento buscou fama ou liderança, algo tão comum nos dias de hoje.

Ele ficou conhecido por suas principais virtudes: “…Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé…” Atos 11:24. Era conhecido também por ‘consolador”. Dá para imaginar o quanto ele era amoroso e paciente?

Talvez precisemos mais desse tipo de pessoa hoje em dia. Gente disposta a consolar, ao invés de julgar e jogar pedras. Gente amorosa ao invés de carrancuda. Gente que transmite alegria ao invés de desânimo. Gente generosa que dá ao invés de cobrar. Gente cheia de fé, que inspira outros a não desanimar na caminhada.

Nossas igrejas estão lotadas de pessoas que sofrem, solitárias, desanimadas, mal amadas, traumatizadas com o falso evangelho, falsos líderes e falsa comunhão. Irmãos necessitando de alguém que lhes empreste os ouvidos, que lhes cedam tempo de qualidade, que chorem junto, alegrem-se juntos, sofram junto e sejam vitoriosos juntos.   

Quem sabe, Deus nos chamou para sermos os novos Barnabés desse tempo? “O tempora, o mores!”

Pense nisso!

Até a próxima!!!

Deus o abençoe!!!

                                                                                                              

Notas

1. J. Williams, David. Atos, Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. São Paulo: Editora Vida, 1985.

2. H. Gundry Robert. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1978.

3. Craig S. Keener. Comentário Bíblico Atos, Novo Testamento. São Paulo: Editora Atos, 2004.

4. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cícero

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