Interpretações Duvidosas – Hebreus 6 (2/2)

Interpretações Duvidosas – Hebreus 6 (2/2)

posted in: Certeza da salvação | 0

Hebreus 6.4-8

Vimos anteriormente que um dos objetivos do autor era mostrar que não há salvação longe de Cristo e que essa salvação, uma vez recebida, não pode ser perdida, pois a salvação depende exclusivamente de Jesus Cristo.

Apesar disso, o capítulo 6 da mesma carta parece dizer algo contrário. Por isso, nesse momento iremos estudar específicamente Hebreus 6.4-8. Ao analisarmos os versículos de 4 a 8, constatamos que as palavras “experimentaram ou provaram” e “terra”, foram as que mais se repetiram. Cada uma repetiu duas vezes, e o termo “Deus” três no total. Isso nos mostra que o assunto levantado aqui gira em torno dessas palavras. Uma vez que esse trecho não é tão simples de ser entendido, analisaremos por partes.

Primeiro, o próprio escritor aos Hebreus orienta que nos “tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim” (Hb 3.14; grifo nosso). Observando o texto com cuidado, fica a pergunta: as pessoas mencionadas em Hb 6.4-8 tinham permanecido até o fim ou tinham caído?

De acordo com reverendo Moisés Cavalcanti BEZERILL[2], a palavra grega em Hb 6.6 para queda1 (PARAPTÔMA), pode muito bem referir-se à:

1 – “Ofensas comuns” do dia a dia de um cristão (Mt 6.14; Mc 11.25; Gl 6.1) ou

2 – Ao estado de morte espiritual e condenação eterna, no qual se encontram todos aqueles que ainda não foram vivificados e ressuscitados por Deus em Cristo Jesus (Rm 4.25;5.15-18,20;11.11; 2Co 5.19; Ef 1.7;2.1,5; Cl 2.13).

1O verbo cair no original em Gl 5.4 (está no sentido figurado) é diferente de Hb 6.6 (está no sentido literal)

Dessas duas opções, a segunda parece ser a mais provável pois todos os pecados comuns tem perdão, mas o texto em estudo fala de algo que não tem restauração. O próprio Cristo disse de si mesmo, “quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus ” (João 3:18). Assim como em Gálatas, essas “pessoas que caíram” estavam acreditando que poderiam ser salvas pelo cumprimento da Lei e por isso estavam voltando para o judaísmo e negando o evangelho.

Segundo, quem não confia somente em Cristo para salvação, mesmo que viva anos em uma igreja nunca será salvo enquanto não crer “no nome do unigênito Filho de Deus”. Crer dessa forma, significa crer e depender somente de Cristo para a salvação. É acreditar totalmente no Filho de Deus, obedecendo-o e confiando que Ele é capaz de garantir a sua salvação até o fim. Mas, não foi isso que aconteceu com essas pessoas que abandonaram o evangelho (“caíram”, cometeram apostasia [4]), elas não eram de fato convertidas apesar de terem vivido; presenciado os milagres de Deus, o dia a dia da igreja; e abençoados juntamente com os eleitos de Deus. Como disse o apóstolo João certa vez: “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós” (1 Jo 2.19; grifo nosso).

É nesse sentido que tais pessoas foram iluminadas (esclarecidas, foi lançado luz sobre algo [5]). Tornaram-se participantes (bem diferente de “terem recebido o Espírito”) do Espírito Santo e provaram o dom celestial: Elas conheceram e entenderam intelectualmente o plano da salvação. Participaram das bençãos da igreja. Vivam como cristãos aceitando a idéia de Cristo como Salvador e provavelmente foram batizadas. Fizeram confissão de fé, talvez tivessem pregado o evangelho. Presenciaram milagres, receberam ou realizaram algum em nome de Jesus e até foram batizadas. Também experimentaram a bondade da palavra de Deus. No entanto, como acontece hoje em dia, eram cristãos nominais. Não eram convertidas. Acreditavam apenas que o evangelho seria algo melhor, mas não poder para salvação.

Era para essas pessoas que o autor de Hebreus estava falando. Elas não permaneceram em Cristo até o fim, negaram a Cristo. Por tanto, podemos resumir Hebreus 6 do versículo 4 ao 5 da seguinte forma:

Hebreus 6.4-5

Pergunta

Resposta

“provaram o dom celestial” e “experimentaram a bondade da palavra de Deus

Um não salvo pode provar das bênçãos de Deus distribuídas na igreja? Mateus 7.22-23; Hebreus 10.26-27

SIM

tornaram-se participantes do Espírito Santo

Um não salvo pode viver como se fosse cristão e negar o Evangelho um dia? Hebreus 3.14

SIM

 

Terceiro, a palavra “terra” nos versículos 7 e 8 muito tem a nos dizer, mas parece que não é levada em consideração por alguns. Certa vez o próprio Senhor explicou utilizando a mesma palavra [6] “terra” como simbologia de “coração” na parábola do semeador em Mateus 13.19-23:

Versículo

Texto

Resultado

19

“alguém ouve a mensagem do Reino e não a entende

Não entende: “O Maligno vem e lhe arranca o que foi semeado em seu coração”

20 a 21

 

“ouve a palavra e logo a recebe com alegria.”

Permanece pouco tempo no evangelho: “Todavia, visto que não tem raiz em si mesmo, permanece por pouco tempo. Quando surge alguma tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo a abandona.”

22

“ouve a palavra, mas …

Não produz frutos: “mas a preocupação desta vida e o engano das riquezas a sufocam, tornando-a infrutífera.”

23

“o que foi semeado em boa terra: este é aquele que ouve a palavra e a entende”

Permanece até o fim: “dá uma colheita de cem, sessenta e trinta por um”

 

Agora vejamos o que diz Hebreus 6.7-8 logo após o autor dizer que é “impossível que tais pessoas” (que não permaneceram até o fim crendo em Cristo, apesar de tudo que viveram e ) sejam reconduzidas ao arrependimento:

Versículo

Texto

Resultado

7

Terra[boa] que absorve a chuva, que cai freqüentemente e dá colheita proveitosa àqueles que a cultivam”

Permanece até o fim: Recebe todas as bênçãos de Deus (incluindo a salvação).

8

 

Terra [inútil] que produz espinhos e ervas daninhas, é inútil e logo será amaldiçoada.”

Não permanece até o fim: Seu fim é ser queimado, experimenta algumas bençãos e de jeito nenhum receberam a principal: a salvação.

 

Presume-se que o autor estava se referindo à “terra inútil” quando disse ser “impossível que sejam reconduzidos ao arrependimento; pois para si mesmos estão crucificando de novo o Filho de Deus, sujeitando-o à desonra pública”. Depois de todo conhecimento e experiência, a pessoa decide voltar para os pecados anteriores, isso faz com que seu coração seja endurecido e impossibilite o arrependimento.

Com relação a palavra reconduzido (NVI) ou renovado (ACF), no grego significa “voltar ao estado anterior” [2], neste caso, de arrependimento. Pois, quem está em Cristo tem uma vida de arrependimento, isto é, quando um salvo peca, ao ser confrontado com a Palavra e pelo Espírito Santo ele é levado ao arrependimento. Pessoas que apostatam da fé nunca mais desejarão voltar para a igreja e nem mesmo acreditarão mais na Palavra de Deus.

Segundo o pastor McArthur, “a prova clara de que a pessoa insultou o Espírito da graça é a perda de toda a sua capacidade de desejar arrependimento e restauração” [3]. Ou seja, tal pessoa deseja continuar rejeitando o Espírito Santo e negando a Cristo. A blasfêmia contra o Espírito Santo consiste nisto.

Em Mt 12, por causa da incredulidade chegaram a afirmar que o Espírito Santo era Satanás ao dizerem que as obras do Espírito eram de Satanás. Mesmo que eles tenham conhecido as Escrituras, presenciado os milagres operados por Cristo, eles resistiram ao Espírito Santo e negaram a Cristo. Esse é o mesmo pecado que leva à morte mencionado em 1Jo 5.16-17:

“Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não leva à morte, ore, e Deus lhe dará vida. Refiro-me àqueles cujo pecado não leva à morte. Há pecado que leva à morte; não estou dizendo que se deva orar por este. Toda injustiça é pecado, mas há pecado que não leva à morte.” (grifo nosso)

Como os eleitos foram predestinados para salvação mediante Jesus (Ef 1.4-6), então eles não podem ou jamais conseguirão blasfemar contra o Espírito Santo. O eleito depois de salvo, mesmo que venha a se desviar da fé, contudo não perde completamente a capacidade de se arrepender e de um dia voltar a casa do Senhor, para os braços do pai.

Aplicação do Estudo

Caso você, leitor, desviou-se do evangelho mas deseja voltar, então você não blasfemou contra o Espírito Santo. Volte agora para os caminhos do Senhor. Pois está escrito:

Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre” (Jo 7.37-38; grifo nosso)

e

todo o que o Pai me der virá a mim, e quem vier a mim eu jamais rejeitarei”. (Jo 6.37; grifo nosso)



NOTA:

[1] MARSHALL, I. Howard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Ed Vida Nova, 2007;

[2] BEZERRIL, Rev. Moisés Cavalcanti. Artigo A queda dos Iluminados de Hebreus 6:4-6 Calvino e Matthew Poole. Acessado em 22/11/2013. Link http://www.monergismo.com/textos/perseveranca/iluminados_Bezerril.pdf

[3] MACARTHUR, John. Salvos sem sombra de dúvidas. São Paulo: Ed Palavra, 2011. Pág: 33;

[4] DANKER, Frederick W. & GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento. São Paulo: Ed Vida nova, 2012. Pág: 157;

[5] DANKER, Frederick W. & GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento. São Paulo: Ed Vida nova, 2012. Pág: 221;

[6] DANKER, Frederick W. & GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento. São Paulo: Ed Vida nova, 2012. Pág: 47;

[NVI] – Tradução Bíblica na Nova Linguagem Internacional;

[ACF] – Tradução Bíblica Almeida Corrigida Fiel.

Interpretações Duvidosas – Hebreus 6 (1/2)

Interpretações Duvidosas – Hebreus 6 (1/2)

posted in: Certeza da salvação | 1

Hebreus 6.4-8

Na segunda parte desta série vimos que não nascemos sabendo de tudo e por isso não podemos rejeitar o que foi estudado ou escrito em mais do dois mil anos de cristianismo. Precisamos aprender a usar e a aplicar regras de hermenêutica e ter apoio de bons comentários e dicionários para que nossa interpretação, pelo menos, não nos faça dizer coisas que o texto não diz. A falta de uma compreensão equilibrada, é outro fator que tem levado muitos crentes a duvidarem da sua salvação quando confrontados por certas passagens bíblicas difíceis.

O primeiro “versículo problemático” estudado foi Gálatas 5.1-5. Vimos como é possível desviarmos do evangelho para “OUTRO evangelho”, ou seja, deixarmos o caminho da graça e nos apegarmos as coisas que contaminam o cristianismo sem, contudo, perder a salvação. Além disso, também estudamos que uma pessoa que não é convertida pode cair da graça, ou seja deixar os benefícios do evangelho, rejeitando a Cristo. Neste estudo analisaremos mais um “versículo problemático”, trata-se de Hebreus 6.4-8.

Analise do contexto histórico

De acordo com o teólogo Ian Howard Marshall, a maioria dos estudiosos concorda que essa carta destinou-se a um grupo de cristãos “tentado a se desviar da fé cristã, em conseqüência de uma combinação de pressão externa e fraqueza interna” [1]. Tais pessoas estariam com o desejo de retornarem ao judaísmo, talvez por falta de convicção no cristianismo ou pelas perseguições de seus famíliares que não aceitavam o cristianimo, pois elas teriam deixado a tradição judaica. Por isso, o autor teria concentrado seus esforços para alertar que a salvação longe de Cristo seria impossível. Seguem alguns motivos porque concordamos com MARSHALL.

 

Primeiro motivo

Fica evidente em Hb 2.1-3, que os cristãos foram exortados a prestarem maior atenção no que tinham ouvido, para que jamais se desviassem (vs 1), e por fim a não negligenciarem Jesus Cristo, a grande salvação de Deus. O autor ainda enfatiza que tal salvação foi primeiramente anunciada pelo próprio Senhor Jesus.

Em seguida, o autor convida todos a fixarem seus pensamentos em Jesus e crerem que Cristo é capaz de interceder e purificar de todos os pecados, uma vez que Ele é o apóstolo e sumo sacerdote que um dia eles haviam confessado. Como está escrito: “Santos irmãos, participantes do chamado celestial, fixem os seus pensamentos em Jesus, apóstolo e sumo sacerdote que confessamos” (Hb 3.1; grifo nosso).

Em Hb 3.7-19, o autor da carta deixa claro que muitos estavam com o coração endurecido por causa da incredulidade, assim como aconteceu com seus antepassados que acabaram se afastando do Deus vivo e morrendo pelo caminho devido ao pecado da incredulidade. Então ele incentivou seus leitores a não cometerem o mesmo pecado. Ao invés disso, eles deveriam encorajar uns aos outros todos os dias, de modo que nenhum deles fossem endurecidos pelo engano do pecado. Isso mostra que provavelmente algo estava desviando os cristão do evangelho.

 

Segundo motivo

Muitos estavam querendo voltar para o judaísmo crendo que o cumprimento da lei traria salvação ou ajudaria a completá-la. Talvez isso tenha motivado o autor a fazer um paralelo entre a lei e a graça, ou seja, entre Moisés e Cristo, ao afirmar com toda convicção: “Moisés foi fiel como servo em toda a casa de Deus, dando testemunho do que haveria de ser dito no futuro, mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é que nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos” (Hebreus 3.5-6; grifo nosso).

Ora, se realmente somos convertidos e nos gloriamos em Cristo, então temos firme confiança e esperança de que Ele é suficiente para nos salvar. Não precisamos de mais nada para completar a salvação. Além disso, todo aquele que se arrepende dos seus pecados e recebe a Jesus como seu único Senhor e Salvador se torna participante de Cristo, se de fato, se apegar até o fim à confiança que teve no princípio quando creu em Jesus (Hb 3.14). Quem é convertido de verdade (e não apenas influenciado), irá crer em Jesus do início ao fim da sua vida independentemente das circunstâncias.

 

Terceiro motivo

O autor faz mais um paralelo, entre o antigo sacerdote da lei e o único supremo e eterno sacerdote Jesus Cristo. “Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos” (Hb 4.14; grifo nosso). “E diz noutro lugar: ‘Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque’.” (Hb 5.6; grifo nosso). Parece que o escrito tenta deixar claro aqui que Cristo é o único que intercede, sem cessar, pelos filhos de Deus.

“Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.” (Hb 4.14-16; grifo nosso)

 

Quarto motivo

Está expresso nesta carta que Cristo garante definitivamente a salvação dos filhos de Deus:

“Querendo mostrar de forma bem clara a natureza imutável do seu propósito para com os herdeiros da promessa, Deus o confirmou com juramento, para que, por meio de duas coisas imutáveis nas quais é impossível que Deus minta, sejamos firmemente encorajados, nós, que nos refugiamos nele para tomar posse da esperança a nós proposta. Temos esta esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus, que nos precedeu, entrou em nosso lugar, tornando-se sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” (Hb 6.17-20; grifo nosso)

Diante desses argumentos, podemos concluir nessa primeira parte do estudo que o autor dessa carta não tinha o objetivo de criar dúvidas sobre a certeza da salvação. Mas, concentrou seus esforços para alertar que a salvação longe de Cristo seria impossível. Portanto, parece ser muito incoerente utilizar o capítulo 6 de Hebreus para afirmar que um crente pode perder a salvação. Na próxima parte, analisaremos novamente com cuidado o texto bíblico de Hebreus 6.4-8.

 

NOTA:

[1] MARSHALL, I. Howard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Ed Vida Nova, 2007;

[NVI] – Tradução Bíblica na Nova Linguagem Internacional;

[ACF] – Tradução Bíblica Almeida Corrigida Fiel.

Interpretações Duvidosas – Gálatas 5

Gálatas 5.1-5

Depois do trabalho em conjunto da Trindade, nesta parte do estudo entraremos em outra área que tem contribuído bastante para provocar dúvidas no coração dos crentes: o mal entendimento do contexto bíblico de alguns versículos de difícil compreensão. Sem dúvidas essas passagens tem gerado confusão e até mesmo divisão, simplesmente porque não é levado em consideração o contexto, ou seja, a exegese não é feita como deveria.

(mais…)

Um trabalho coletivo

posted in: Certeza da salvação | 1

Nas Escrituras Sagradas encontramos afirmações diferentes, das quais podemos perceber que é possível ter segurança da salvação e além disso há um forte apelo para que os crentes busquem ter certeza dessa segurança. Segundo o pastor John Marcarthur, “não ter essa certeza é viver na dúvida e com medo, uma forma diferente de sofrimento e depressão espiritual” [2]. A segurança da salvação não contribui para a salvação e não define se uma pessoa é salva ou não, mas é essencial para o modo como tal pessoa responde à vida cristã. 

 

Noções falsas e verdadeiras

Em questão de depressão espiritual o pastor Martin Lloyd-JONES colabora dizendo: “na verdade, creio que poderia ser facilmente constatado que a maior causa de problemas nesta área, é a tendência fatal de tomar certas coisas como garantidas. Quanto mais eu falo com as pessoas sobre isso, mais vejo que é este o caso. Há tantas pessoas que parecem nunca chegar a uma posição firme sobre a fé cristã, porque não chegam a uma definição clara em sua mente quanto a certos pontos primários, certas coisas fundamentais que deviam ser tratadas no princípio.”[3]

Quando uma pessoa tem uma falsa noção de certeza, sua vida cristã se baseia mais no medo de fazer algo errado do que realmente glorificar a Deus. Isso acontece porque noções falsas sobre a salvação estão sempre baseadas no ser humano, em “garantias erradas”, e não em Deus e suas promessas.

 

Conhecimento sobre salvação

Certeza da Salvação

Conduta Cristã

Falso ou Vago

Não

Insegurança e medo de fazer algo errado

Verdadeiro

Sim

Segurança e confiança nas promessas

 

O silogismo – é quando existe uma premissa maior(P1) e uma menor(P2) que levam a uma única conclusão(C) – muitas vezes contribui para criarmos noções falsas sobre a salvação. Vejamos um exemplo de silogismo utilizado em muitas denominações evangélicas:

João 1.12: “Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus”.

P1: Os que recebem a Jesus tornam-se filho de Deus

P2: Uma pessoa testemunha que aceitou a Cristo como seu Salvador.

(Ex.: levantar a mão no culto para aceitar Jesus ou ir lá frente da igreja recitar uma oração de arrependimento)

C: Concluirmos que essa pessoa foi salva.

Parece lógico, mas não é possível afirmar que o passo “C” é verdadeiro. Pois, não podemos ter certeza que a premissa menor(P2) é verdadeira pelo simples fato da pessoa ter dito que “aceitou” a Jesus.

Se acreditarmos que nossa salvação depende de nós e de Jesus, significa que Cristo não é suficiente e absoluto na salvação, ela depende de nós também! Ora, se somos falhos e pecadores, então é natural crermos não ser possível termos certeza da nossa salvação. Por isso, pessoas que pensam dessa forma vivem uma vida cristã com medo e muitas vezes deprimida.

Mas, quando estamos baseados nas promessas de Deus, que nos dá conhecimento verdadeiro sobre a salvação, a história é outra! A Bíblia nos mostra que podemos ter certeza e também comprová-la (em outros momentos aprofundaremos esse ponto).

 

O que dizer de Tg 1.2-4 e 1Pe 1.6-7 ?

“Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma.” (Tg 1.2-4; grifo nosso)

“Nisso vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de tempo, devam ser entristecidos por todo tipo de provação. Assim acontece para que fique comprovado que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado….”. (1Pe 1.6-7 ; grifo nosso)

As provações mostram se a confissão de fé de uma pessoa foi verdadeira ou não. Além disso, do início ao fim da vida cristã, “o próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Rm 8.16)

Em João 20.31 diz sobre os testemunhos das Escrituras “foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome”. Deus promete vida eterna e salvação a todos que crerem em Jesus.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo de Deus – a Santa Trindade – agem em perfeita harmonia para garantir a  salvação do seu povo. Portanto, existe um trabalho em equipe para assegurar a salvação. Vejamos resumidamente como isso acontece segundo as Escrituras.

 

1) O Decreto Soberano do Pai

Se Deus não tivesse tomado a iniciativa para salvar o homem, não haveria salvação. A Confissão de Fé Batista de 1689 afirma: “A distância entre Deus e a criatura é tão grande que, embora as criaturas racionais lhe devam obediência, por ser Ele o criador, elas jamais poderiam alcançar o Dom da vida, senão por alguma condescendência voluntária da parte de Deus. E isto Ele se agradou em expressar por meio de um pacto com o homem”.[4] Podemos comprovar isso na Palavra de Deus fem João 6.44a: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer…”

Os decretos de Deus “são os divinos desígnios eternos por meio dos quais, antes da criação do mundo, ele determinou realizar tudo o que acontece. Essa doutrina é semelhante à da providência, mas aqui estamos considerando as decisões divinas anteriores a criação do mundo, e não seus atos providenciais no tempo. Seus atos providenciais são a efetivação dos decretos eternos que ele baixou há muito tempo.”[5]

Nosso Senhor disse que veio para executar a vontade do Pai: “E esta é a vontade daquele que me enviou: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas os ressuscite no último dia. Porque a vontade de meu Pai é que todo o que olhar para o Filho e nele crer tenha a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.” (João 6:39-40)

“Era comum, nos tempos do Novo Testamento, a pessoa fazer um juramento sobre algo ou alguém superior a ela mesma. Um homem judeu jurava pelo altar do templo, pelo sumo sacerdote ou até pelo próprio Deus. Uma vez feito tal juramento, a discussão estava encerrada (grifo nosso). Acreditava-se que, se estivesse disposto a fazer um juramento tão sério, o indivíduo estava plenamente decidido a cumpri-lo”. [6]

Em Hebreus 6.13-18 temos a orientação de Deus nesse sentido:

Quando Deus fez a sua promessa a Abraão, por não haver ninguém superior por quem jurar, jurou por si mesmo, dizendo: “Esteja certo de que o abençoarei e farei seus descendentes numerosos”. E foi assim que, depois de esperar pacientemente, Abraão alcançou a promessa. Os homens juram por alguém superior a si mesmos, e o juramento confirma o que foi dito, pondo fim a toda discussão.

Querendo mostrar de forma bem clara a natureza imutável do seu propósito para com os herdeiros da promessa, Deus o confirmou com juramento, para que, por meio de duas coisas imutáveis nas quais é impossível que Deus minta, sejamos firmemente encorajados, nós, que nos refugiamos nele para tomar posse da esperança a nós proposta. (grifo nosso)

Quais seriam essas duas coisas? Sua promessa e juramento. Por isso amados, precisamos nos refugir nas promessas do Pai e tomar posse delas, crer nelas. Pois, Deus deixa claro que a salvação está garantida unicamente porque Ele prometeu e estava decido a faze-la. A maior prova disso foi ter enviado seu próprio Filho para morrer na cruz, consumando de uma vez por todas a salvação! (João 19.30)

 

2) A obra de Cristo como sumo sacerdote

No Antigo Testamento conhecemos a existência do templo judeu. No lugar mais sagrado desse templo, o Santo dos Santos, tinha um véu que o separava do restante do templo. Nesse lugar ficava a arca da aliança que significava a glória de Deus. Apenas uma vez por ano, o sumo sacerdote de Israel passava pelo véu e fazia expiação dos pecados do povo.  

Em Hebreus 6.19-20 diz:

“Temos esta esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus, que nos precedeu, entrou em nosso lugar, tornando-se sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.”(grifo nosso) 

Quando Cristo veio e inaugurou a Nova Aliança, Ele fez a expiação de uma vez por todas e todos os pecados do povo de Deus. Jesus, através do seu sacrifício na cruz, garantiu a salvação dos escolhidos. “Na mente de Deus, a alma do cristão já está guardada por trás do véu – o seu santuário eterno… Nossa alma não somente está ancorada dentro do santuário impenetrável, inviolável e celestial, mas nosso Salvador, o Senhor Jesus Cristo, também as guarda!!”[7].

Jesus sempre orou em perfeita harmonia com a vontade do Pai, ou seja, de acordo com os decretos soberanos do Pai. Podemos perceber isso na sua oração(João 17:11-12; ACF):

“E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição [destinado à perdição NVI], para que a Escritura se cumprisse.”.(grifo nosso)

Então, nota-se que é tanto da vontade do Pai como do Filho assegurar a salvação do seu povo. “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória…”(Judas 1:24 – ACF), na NVI seria: “Àquele que é poderoso para impedi-los de cair e para apresentá-los diante da sua glória sem mácula e com grande alegria..” (grifo nosso)

Além disso existe a promessa de que ninguém poderá tirar os salvos das mãos de Jesus! Ninguém! Disse Jesus:  

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos; ninguém as pode arrancar da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um”. (João 10:27-30; grifo nosso)

Portanto amados, Cristo intercede por nós de acordo com a vontade soberana do Pai. Agarremo-nos às promessas divinas. Jesus nos impedirá de perder a salvação e nos apresentará ao Pai no dia da sua volta. Glória a Deus!!

 

3) O selo do Espírito

Todas essas promessas vistas até agora seriam suficientes, mas Deus ainda faz mais uma promessa para mostrar que a salvação é certa. Ele promete dar seu “selo e  sua garantida” para todos que creem em Jesus. Aqueles que estão em Cristo, ou seja, que se arrependeram dos seus pecados e receberam a Cristo como Senhor e Salvador, podem ter certeza que sua salvação está garantida! Pois também receberam o Espírito Santo para selar tal salvação!

Disse o apóstolo Paulo certa vez:

“Ora, é Deus que faz que nós e vocês permaneçamos  firmes em Cristo. Ele nos ungiu, nos selou como sua propriedade e pôs o seu Espírito em nossos corações como garantia do que está por vir”. (2 Coríntios 1:21-22; grifo nosso)

Segundo MARCARTHUR, em Efésios 1.14 a palavra em grego “Arranbõn”, que é traduzida por “garantia”, refere-se a um sinal ou adiantamento dado para garantir uma compra. Mais tarde passou a representar qualquer tipo de garantia. O Espírito de Deus é dado a todo salvo como uma garantia de “compra” da nossa salvação.

Amados, nossa salvação ACONTECE no momento em que cremos em Jesus e como confirmação disso, imediatamente Deus nos concede o seu Espírito Santo. No entanto, somente alcançaremos a consumação da salvação quando Cristo voltar para levar sua Igreja. Enquanto isso,  não receberemos direta e imediatamente a plenitude de todas as promessas de Deus. Por isso, muitas vezes somos tentados a duvidar da nossa salvação. Como ainda esperamos a redenção de nossos corpos, a obra da salvação, apesar de garantida, ainda não se completou. Somente no grande dia da volta de Cristo, isso acontecerá.

“Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo”. (Romanos 8:22-23)

A Igreja é a noiva de Cristo, e de manenira nenhuma ela será negligenciada ou abandonada por Jesus! Na linguagem dos tempos do AT e do NT o noivado já era o ínicio do casamento, mas ainda não era a consumação dele. Os conjuges já  eram comprometidos um com o outro, mas nem tudo que era pertencente ao casamento poderia ser vivido no noivado. Da mesma forma, a Igreja é noiva de Cristo. O compromisso já existe. Por isso, sem sombra de dúvidas Jesus levará sua “noiva”, que é a igreja, para a consumação do casamento.

Portanto, o Espírito Santo contribui para assegurar nossa salvação. Se o recebemos de fato, as obras do Espírito serão visíveis durante a maior parte da nossa vida cristã. A fuga e a luta contra o pecado e a busca por fazer a vontade de Deus serão reais e necessárias do inicio da conversão até o dia que Jesus voltar. Essa é a santificação que Deus espera do seu povo.

Concluímos então que a nossa salvação está garantida pela ação coletiva da Trindade! “O decreto soberano do Pai, o ministério intercessório do Filho e o selo do Espírito – todos cooperam de forma magnifica para promover uma salvação segura”.[8] Ter certeza da salvação significa, simplesmente, confiar nas promessas de Deus. Nada do que façamos poderá contribuir para nossa salvação, mas nossas atitudes demonstram se realmente somos salvos ou não. 

 

Aplicação do estudo

1 – Procure se familiarizar com os textos mencionados no estudo.

2 – Reflita sobre sua vida e veja se seus atos estão testemunhando a vida de um salvo ou a vida de alguém que deseja ser salvo.

3 – Encontre na Bíblia uma passagem que AFIRME ser possível alguém deixar de ser justificado.

4 – Procure outras passagens bíblicas que falem sobre salvação. Leia e medite com bastante atenção.

 

 

NOTA:

[1] JOINER, Eduardo. Manual Prático de Teologia. Rio de Janeiro: Ed Central Gospel, 2004. Pág: 460;

[2] MACARTHUR, John. Salvos sem sombra de dúvidas. São Paulo: Ed Palavra, 2011. Pág: 13;

[3] JONES, D. M. Lloyd. Depressão Espiritual. São Paulo: Ed PES,1996. Pág: 9;

[4]CORRÊA, Paulo. Artigo Pacto da Graça – Conceitos Iniciais, link: http://justificacaopelafe.com.br/index.php/assuntos/esbocos-teologicos/124-teologia-do-pacto/371-pacto-da-graca-conceitos-iniciais;

[5] FERREIRA, Franklin. Teologia Sistemática. São Paulo: Ed Vida Nova, 2007. Pág: 305;

[6] MACARTHUR, John. Salvos sem sombra de dúvidas. São Paulo: Ed Palavra, 2011. Pág: 23;

[7] MACARTHUR, John. Salvos sem sombra de dúvidas. São Paulo: Ed Palavra, 2011. Pág: 24;

[8] MACARTHUR, John. Salvos sem sombra de dúvidas. São Paulo: Ed Palavra, 2011. Pág: 27;

[NVI] – Tradução Bíblica na Nova Linguagem Internacional;

[ACF] – Tradução Bíblica Almeida Corrigida Fiel.