Interpretações Duvidosas – Gálatas 5

Depois do trabalho em conjunto da Trindade, neste estudo entraremos em outra área que tem contribuído bastante para provocar dúvidas no coração de muitos crentes: o mal entendimento do contexto bíblico de alguns versículos de difícil compreensão. Sem dúvidas essas passagens tem gerado confusão e até mesmo divisão, simplesmente porque não é levado em consideração o contexto e a exegese é esquecida por muitos.

Geralmente temos a tendência de aplicarmos o texto para os dias atuais (hermenêutica), sem antes sabermos seu significado para época na qual foi escrito (exegese). Seguem algumas noções importantes sobre o assunto[1]:

1- Estudar o texto bíblico e seu contexto: Para interpretarmos corretamente o “lá e antigamente”, ou seja, o que foi dito para as primeiras pessoas, precisamos saber das regras gerais de interpretação e as regras especiais que se aplicam a cada um dos gêneros literários que compõem a Bíblia. 

2- Realizar a exegese: Estudar a Palavra que as primeiras pessoas ouviram. Deve-se procurar compreender o que foi dito a elas “lá e antigamente”.

3- Aplicar a hermenêutica: Aprender a “ouvir” essa mesma Palavra “aqui e atualmente”.

4- Humildade para aprender com outros: Como não nascemos com todo o conhecimento, não podemos desprezar o que foi estudado durante esses 2 mil anos de cristianismo. Precisamos de bons comentários exegéticos e dicionários bíblicos para nos manter nos limites do contexto bíblico. Não precisamos concordar em tudo com os comentários, mas temos que ter cuidado com invenções pessoais.

O texto em Gl 5.1-5 é do gênero “Epístola” pois pertence à carta que o apóstolo Paulo escreveu aos gálatas. Vamos lá?

Analise do contexto histórico

No final do capítulo 4, o apóstolo ensinou que o povo de Deus é oriundo da promessa assim como Isaque, filho de Abraão:

Vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque. Naquele tempo, o filho nascido de modo natural perseguia o filho nascido segundo o Espírito. O mesmo acontece agora. Mas o que diz a Escritura? “Mande embora a escrava e o seu filho, porque o filho da escrava jamais será herdeiro com o filho da livre”. Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas da livre. (Gl 4:28-31; grifo nosso)

Por isso, no início do capítulo 5 ele diz: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão”. Ora, quem estivesse obrigado a praticar as cerimonias da lei, estaria escravizado aos princípios elementares da lei (Gl 4.4-5).  Quais seriam esses? 

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez? Vocês estão observando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos! Temo que os meus esforços por vocês tenham sido inúteis.”(Gálatas 4:9-11; grifo nosso)

Em Cristo, não havia mais a necessidade nem a obrigatoriedade de submissão às cerimonias da lei. No entanto, os falsos apóstolos ensinavam que a circuncisão era necessária como rito para iniciar a vida cristã. Eles consideravam a circuncisão como mais um sacramento/ordenança deixado por Jesus, mas Ele deixou somente o batismo que substituiu o significado da circuncisão, e a santa ceia.  Segundo Calvino [2], esses falsos apóstolos não negavam a Cristo nem desejavam deixá-lo, mas queriam associar a graça de Cristo com as obras da lei de forma que a justificação seria pela fé e também pelo merecimento, e não somente pela fé.

Analise do texto bíblico

Aos analisarmos os versículos de 1 a 5, constatamos que as palavras “circuncisão” e “justiça/justificação”, foram as que mais se repetiram. Cada uma repetiu duas vezes, somente a palavra “Cristo” repetiu mais vezes, três no total. Isso nos mostra o assunto levantado nesse trecho. Se déssemos títulos para cada um desses versículos, eles girariam em torno dessas palavras.

Então podemos concluir que Paulo não estava interessado em abordar a segurança da salvação, mas estava tratando dos “caminhos contrastantes da graça e da lei, da fé das obras, como meio de salvação” [3]. Um salvo por Cristo deve caminhar pela Graça de Deus, isso implica que ele não pode colaborar para a sua própria salvação, mesmo que observe as obras da lei (nesse caso seja circuncidado) ou através de boas obras (nesse caso crer que a prática delas faz Deus nos amar mais do que nos amou na cruz). Andar pela graça de Deus é confiar que a fé em Cristo é suficiente para nossa justificação.

Por que Paulo insistiu nesse assunto? Ora, se os Gálatas aceitassem a circuncisão, talvez o próximo passo fosse voltar ao judaísmo (Gl 5:3). Então o apóstolo os advertiu: “permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão”.

Paulo escreveu aos romanos dizendo: “Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão”(Rm 3.30) e em Rm 4.11 ele lembra que a circuncisão foi o selo da fé de Abraão. Isso nos mostra que Paulo não era contrário a essa prática, mas estava lutando contra os ensinamentos errados dos falsos apóstolos que diziam que a circuncisão era necessária para completar a salvação. Isso estava dividindo a igreja e fazendo com que muitos, principalmente os que não eram judeus, acreditassem que a salvação seria pela prática da lei também!

Outra coisa, se a circuncisão fosse praticada, toda a lei também deveria ser. Eles estariam novamente vivendo como se o salvador não tivesse vindo, viveriam como condenados pela lei. “Aquele que está obrigado a guardar toda a lei jamais escapará à morte, mas será para sempre considerado culpado, pois jamais se encontrará um homem capaz de satisfazer à lei” [4]. Portanto, os que voltassem a praticar as cerimonias da lei consequentemente voltariam para o judaísmo, se privariam de todos os benefícios obtidos pela Graça – “caíram da graça” -, perderiam a liberdade de se isentarem das cerimonias da lei.

Um ponto a ser destacado também seria o verbo (em grego) εκπίπτω (“cair”), está no sentido figurado [5]. Isto é, não significa literalmente cair ou perder a salvação. Mas deixar o caminho pertencente a graça, desviar-se do Evangelho. Lembremos que o apóstolo inicia a carta aos gálatas alertando: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho” (Gl1:6; grifo nosso). Pois, se o outro evangelho (uma parte do judaísmo e o evangelho) é o caminho para salvação, então já não fazia mais sentido Cristo ser único caminho para a salvação (Gl 5:2). Porque é no verdadeiro evangelho que “se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé.” (Rm 1:17)

Quando Paulo falou cair da graça, ele “não estava se referindo à segurança do cristão, mas aos caminhos contrastantes da graça e da lei, da fé e das obras, como meio de salvação. Sem dúvidas, ele não estava ensinando que, uma vez justificada, a pessoa pode perder sua justa posição diante de Deus e voltar a se perder por ser legalista. A Bíblia nada diz sobre alguém se tornar não justificada” [3]. Por isso essa passagem não pode ser utilizada como argumento para defender que o salvo em Cristo pode perder a salvação.

Temos outros exemplos disso no nosso dia-a-dia. Quantas igreja não “acrescentam” certas práticas como se fossem necessárias para completar a salvação? Existem tantos legalistas hoje como no passado, só a forma e os meios mudaram. Nem por isso, podemos generalizar ou afirmar que eles não são salvos. No mínimo podemos, com certeza, dizer que esses legalistas caíram da graça, desviaram do evangelho para seguir OUTRO Evangelho.

No entanto, segundo MacArthur, esse texto também pode ser aplicado a alguém que de fato era incrédulo, “o princípio de cair da graça fala sobre a pessoa que é exposta à graciosa verdade do evangelho e depois dá as costas para Cristo. Tal pessoa é apóstata” [3]. Pois, naquela época muitos judeus e gentios – ouviram, testemunharam, foram iluminados pelo evangelho e por isso até defenderam a fé -, no entanto nunca foram salvos pela fé em Cristo e por isso o negaram em certo tempo.  Esses são os apóstatas. Por isso, é necessário experimentar o novo convertido antes de colocá-lo em algum cargo da igreja para não vir a trazer prejuízos ao corpo de Cristo (1Tm 3:6).

Então concluímos que, segundo o contexto de gálatas 5, “cair da graça” pode significar: Primeiro, é possível um crente desviar do evangelho para “OUTRO evangelho”. Esse se privaria de todos os benefícios obtidos pela Graça,  ou seja, perderiam a liberdade de se isentarem das cerimonias da lei. Segundo, uma pessoa que não é convertida pode deixar os benefícios do evangelho, o convívio na igreja;  e rejeitar a Cristo, não crendo mais que somente Jesus salva. 

Aplicações do estudo

1- Busquemos interpretar o texto bíblico primeiro fazendo a Exegese e depois a Hermenêutica;

2- Tenhamos bons comentários exegéticos e dicionário bíblicos para auxiliar na interpretação.

3- Fiquemos atentos para coisas que nos fazem rejeitar o caminho da graça, para não vivermos baseados em nossa própria obras ao invés de vivermos pela fé nas obras realizadas por Cristo na cruz. Precisamos ter cuidado para não “cairmos da graça”, isto é, vivermos um outro evangelho.

 

NOTAS:

[1] D. FEE, Gordon & STUART, Douglas. Entendes o que lês? São Paulo: Ed Vida Nova, 2013;

[2] CALVINO, João. Série de comentários bíblicos – Gálatas/Efésios/Filipenses/Colossenses. São Paulo: Ed Fiel, 2010. Pág:160;

[3] MACARTHUR, John. Salvos sem sombra de dúvidas. São Paulo: Ed Palavra, 2011. Pág: 31;

[4] CALVINO, João. Série de comentários bíblicosGálatas/Efésios/Filipenses/Colossenses. São Paulo: Ed Fiel, 2010. Pág:161;

[5] DANKER, Frederick W. & GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento. São Paulo: Ed Vida nova, 2012. Pág: 68;

[NVI] – Tradução Bíblica na Nova Linguagem Internacional;

[ACF] – Tradução Bíblica Almeida Corrigida Fiel.

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