Interpretações Duvidosas – Hebreus 6 (parte 1)

Hebreus 6.4-8

Na segunda parte desta série vimos que não nascemos sabendo de tudo e por isso não podemos rejeitar o que foi estudado ou escrito em mais do dois mil anos de cristianismo. Precisamos aprender a usar e a aplicar as regras de hermenêutica, ter apoio de bons comentários e dicionários para que nossa interpretação, pelo menos, não nos faça dizer coisas que o texto não diz. Dessa forma será possível ter uma compreensão equilibrada de certas passagens bíblicas difíceis. O primeiro “versículo problemático” estudado foi Gálatas 5.1-5. Desta vez analisaremos Hebreus 6.4-8.

Analise do contexto histórico

De acordo com o teólogo Ian Howard Marshall, a maioria dos estudiosos concorda que essa carta destinou-se a um grupo de cristãos “tentado a se desviar da fé cristã, em conseqüência de uma combinação de pressão externa e fraqueza interna” [1]. Eles estariam com o desejo de retornarem ao judaísmo, talvez por falta de convicção no cristianismo ou pelas perseguições de seus familiares judeus que não aceitavam o cristianismo. Por isso, o autor concentrou seus esforços para alertar que a salvação longe de Cristo é impossível. Seguem alguns motivos porque concordamos com MARSHALL.

Primeiro motivo

Fica evidente em Hb 2.1-3, que os cristãos foram exortados a prestarem maior atenção no que tinham ouvido, para que jamais se desviassem, e por fim a não negligenciarem Jesus Cristo, a grande salvação de Deus. Em seguida, o autor convida todos a fixarem seus pensamentos em Jesus que é capaz de interceder e purificar de todos os pecados, uma vez que Ele é o sumo sacerdote que um dia eles tinham confessado como Salvador. Como está escrito.

Em Hb 3.7-19, o autor da carta deixa claro que muitos estavam com o coração endurecido por causa do pecado da incredulidade, assim como aconteceu com seus antepassados que acabaram se afastando do Deus vivo e morrendo pelo caminho devido a esse pecado. Então ele incentivou seus leitores a encorajarem uns aos outros todos os dias, de modo que nenhum deles fossem endurecidos pelo engano do pecado. Isso mostra que provavelmente algo estava desviando-os do evangelho.

Segundo motivo

Muitos estavam querendo voltar para o judaísmo crendo que o cumprimento da lei traria salvação ou ajudaria a completá-la. Talvez isso tenha motivado o autor a fazer um paralelo entre a lei e a graça, ou seja, entre Moisés e Cristo, ao afirmar com toda convicção: “Moisés foi fiel como servo em toda a casa de Deus, dando testemunho do que haveria de ser dito no futuro, mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é que nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos” (Hebreus 3.5-6; grifo nosso).

Ora, se realmente somos convertidos e nos gloriamos em Cristo, então temos firme confiança e esperança de que Ele é suficiente para nos salvar. Não precisamos de mais nada para completar a salvação. Além disso, todo aquele que se arrepende dos seus pecados e recebe a Jesus como seu único Senhor e Salvador se torna participante de Cristo, se de fato, se apegar até o fim à confiança que teve no princípio quando creu em Jesus (Hb 3.14). Quem é convertido de verdade (e não apenas influenciado), irá crer em Jesus do início ao fim da sua vida independentemente das circunstâncias.

Terceiro motivo

O autor faz mais um paralelo, entre o antigo sacerdote da lei e o único supremo e eterno sacerdote Jesus Cristo. “Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos” (Hb 4.14; grifo nosso). “E diz noutro lugar: ‘Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque’.” (Hb 5.6; grifo nosso). Parece que o escrito tenta deixar claro aqui que Cristo é o único que intercede, sem cessar, pelos filhos de Deus.

“Portanto, visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o Filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim sendo, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade.” (Hb 4.14-16; grifo nosso)

Quarto motivo

Está expresso nesta carta que Cristo garante definitivamente a salvação dos filhos de Deus:

“Querendo mostrar de forma bem clara a natureza imutável do seu propósito para com os herdeiros da promessa, Deus o confirmou com juramento, para que, por meio de duas coisas imutáveis nas quais é impossível que Deus minta, sejamos firmemente encorajados, nós, que nos refugiamos nele para tomar posse da esperança a nós proposta. Temos esta esperança como âncora da alma, firme e segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus, que nos precedeu, entrou em nosso lugar, tornando-se sumo sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” (Hb 6.17-20; grifo nosso)

Diante desses argumentos, podemos concluir nessa primeira parte do estudo que o autor dessa carta não tinha o objetivo de criar dúvidas sobre a certeza da salvação. Mas, concentrou seus esforços para alertar que a salvação longe de Cristo seria impossível. Portanto, parece ser muito incoerente utilizar o capítulo 6 de Hebreus para afirmar que um crente pode perder a salvação. Na próxima parte, analisaremos novamente com cuidado o texto bíblico de Hebreus 6.4-8.

NOTA:

[1] MARSHALL, I. Howard. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Ed Vida Nova, 2007;

[NVI] – Tradução Bíblica na Nova Linguagem Internacional;

[ACF] – Tradução Bíblica Almeida Corrigida Fiel.

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